A inovação tecnologica no contexto da sociedade do conhecimento
1. INTRODUÇÃO
Na sociedade do conhecimento, o elemento diferenciador na atividade produtiva é o próprio conhecimento, sendo que as matérias primas passam a ter uma conotação secundária. Nessa sociedade produziram-se também outras grandes mudanças nos âmbitos social, econômico e produtivo. Entre elas, a mudança no modo de comunicação, derivada do surgimento da internet e das tecnologias de digitalização de documentos. A comunicação passa a ser processada de “muitos para muitos", facilitando a disseminação de informações e a socialização do conhecimento.
Fortes investimentos em pesquisa e desenvolvimento feitos pelas organizações e promovidos geralmente pelos governos dos países desenvolvidos, e o intercâmbio de fluxos de informação entre países além de bens e capitais, entre outros, são fatores preponderantes nessa nova sociedade. .
Todos esses fatores dão suporte e facilitam a criação de conhecimento, o bem mais apreciado nesta época. A inovação é vista como uma vantagem competitiva pelas organizações e, conseqüentemente, investimentos em pesquisa e desenvolvimento de produtos são realizados, para se criar conhecimento, o principal insumo do processo inovativo.
O presente artigo objetiva mostrar como a inovação é entendida no contexto da sociedade do conhecimento, identificando sua relação com o conhecimento, as novas tendências empresariais frente a ela, e os novos papéis que os governos têm para fomentar esse processo.
2. A SOCIEDADE DO CONHECIMENTO
A sociedade do conhecimento é compreendida como aquela na qual o conhecimento é o principal fator estratégico de riqueza e poder, tanto para as organizações quanto para os países. Nessa nova sociedade, a inovação tecnológica ou novo conhecimento, passa a ser um fator importante para a produtividade e para o desenvolvimento econômico dos países (DRUCKER, 1993; LEMOS, 1999; CHAPARRO, 2001; FUKS, 2003; D'AMARAL, 2003).
A sociedade de conhecimento é então posterior à sociedade industrial moderna, na qual matérias primas e o capital eram considerados como o principal fator de produção. Essa nova sociedade é impulsionada também por contínuas mudanças, algumas tecnológicas como a Internet e a digitalização, e outras econômico-sociais como a globalização. Para Fuks (2003) mesmo que alguns elementos estruturantes da sociedade moderna permaneceram na sociedade do conhecimento, e até foram intensificados, também existem algumas diferenças entre as duas sociedades, conforme mostra o quadro 1:
Quadro 01
2.1. Características da sociedade do conhecimento
Quando se observa a sociedade pelo prisma histórico percebe-se, que do ponto de vista econômico, pode-se visualizar várias fases tais como: da sociedade dita agrícola, na qual a terra e a mão de obra foram os fatores preponderantes para determinar o nível de desenvolvimento; sociedade dita industrial, na qual o capital e o trabalho passam a ser forças motrizes do desenvolvimento econômico e na sociedade dita do conhecimento, na qual o conhecimento passa a ser o fator essencial do processo de produção, geração de riquezas e desenvolvimento dos países. Para Gorz (2005), o conhecimento se tornou a principal força produtiva, os produtos da atividade social não são mais produtos de trabalho cristalizado, mas de conhecimento cristalizado. O valor de troca das mercadorias não é determinado pela quantidade de trabalho social nelas contidas, mas pelo conteúdo de conhecimento, de informações e de inteligências gerais. Assim, o capital humano passa a fazer parte do capital da empresa, os trabalhadores pós-fordistas entram no processo de produção com toda a sua bagagem cultural.
Assim, entre as principais características da sociedade do conhecimento, encontram-se as seguintes:
- Os produtos são valorados pelo conhecimento neles embutido. Assim, o poderio econômico das organizações e dos países está diretamente relacionado ao fator conhecimento (BORGES, 1995; FUKS, 2003).
- A pesquisa científica tornou-se fundamental para o desenvolvimento dos países (MATTELART, 2005; GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2002).
- A criação de conhecimento organizacional tornou-se um fator estratégico chave para as organizações, sendo fonte de inovação e vantagem competitiva (DRUCKER, 1993; NONAKA;TAKEUCHI, 1997; CHOO, 2003).
- O conhecimento, a comunicação, os sistemas e usos da linguagem tornaram-se objetos de pesquisa cientifica e tecnológica, sendo o estado um agente estratégico para o desenvolvimento científico (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1995, 2002).
- Os fluxos de informação e conhecimento entre países, são acrescentados aos fluxos de capital e de bens já existentes, tornando-se uma economia transnacional (FUKS, 2003; MATTELART, 1997; CORTÉS, 2005).
- Ocorreu uma mudança no paradigma de comunicação, a lógica comunicacional de “um para muitos" foi substituída pela de “muitos para muitos", impulsionado pelo surgimento da Internet como meio de disseminação de informações e pelas novas tecnologias motivadas pela digitalização de documentos (LÉVY, 2000; VAZ, 2004).
O declínio do peso e valor das matérias primas usadas nos produtos industriais finais, em favor do aumento em valor e quantidade do componente do conhecimento (BORGES, 1995; FUKS, 2003) é claramente observado na atualidade, por exemplo, na indústria automotriz, na qual um automóvel pode ter um custo de até US$ 300,000.00, não pela manufatura das suas partes ou a montagem dele, mas pelo conhecimento envolvido nele, tangível nos sistemas de computador de última tecnologia que o carro traz para melhorar o seu o conforto e a sua segurança.
Outro ponto importante, abordado por Fuks (2003), refere-se à mudança do conceito de obsolescência. Na sociedade moderna a obsolescência era determinada pelo fato de que se fazia produtos com menor vida útil para incrementar a produção. Na sociedade do conhecimento, a própria inovação gera a obsolescência, novos produtos, novas máquinas e novas formas de produção elimina os bens antigos, originando uma rápida substituição de bens finais e das máquinas utilizadas para a sua produção.
Fuks (2003) identifica um conjunto de fatos sociais relacionando-os com a sociedade do conhecimento, algumas deles também discutidos por outros autores, embora com visões distintas. Entre estes fatos indica a entrada da mulher no mundo do trabalho, a ampliação da exclusão, o enfraquecimento do Estado pela globalização. Para este autor, na sociedade do conhecimento, a informação sobre ciência e tecnologia é transmitida imediatamente produzindo uma democratização do conhecimento. Mattelart (2002, p.74) não concorda com essa idéia, alegando que ‘monopólios de informação' são produzidos pelas desigualdades na velocidade das comunicações, constituindo ao mesmo tempo um instrumento e o resultado da dominação política. Além disso, na experiência atual, observa-se que mesmo que o conhecimento possa ser disseminado ou transmitido facilmente, rapidamente e ainda a baixo custo, precisa-se de uma base já existente de conhecimento e experiência por parte das pessoas, para estas possam estar capacitadas em receber aquele conhecimento. Nos países subdesenvolvidos, grande para da população não tem um nível de letramento adequado, nem uma base de conhecimento capaz de assimilar o conhecimento inovador. Portanto, no curto prazo, a democratização do conhecimento é quase impossível nesse aspecto.
2.2. A mudança do paradigma comunicacional e o seu impacto na criação de inovação e conhecimento
A partir dos 1940, inicia-se uma estratégia que vincula o desenvolvimento do mercado informativo e publicitário com a expansão do capital a escala mundial. Surge assim à doutrina do livre fluxo de informação ou ‘free flow of information' que significou início da imposição da liberdade do comércio com a informação, completando o intercâmbio já existente de capitais, bens e recursos já existente nessa época (CORTÉS, 2005, p.20). Apesar disso, detecta-se uma falência nesse modelo que terminou sendo favorável para os países com maior desenvolvimento, quebrando a suposta igualdade de oportunidade e igualdade na posição dos países para exercer o seu direito à livre competência em informação (CORTÉS, 2005).
Para Cortés (2005), é neste contexto e no marco das relações do capital privado com o estado, que surge a tendência a desenvolver redes mundiais de telecomunicações para dar assistência técnica aos países em desenvolvimento. Cria-se assim a teoria da modernização, que tem como principal referente o livro de Daniel Lerner chamado ‘The Passing of Traditional Society: Modernizing the Middle East', publicado no ano de 1958. Beltrán (2005) afirma que nesse livro Lerner verificou a existência de uma relação positiva entre o desenvolvimento nacional com a comunicação social. Segundo Beltrán (2005), o livro de Lerner também identificou funções diversas da comunicação no processo de modernização, como criar aspirações, fomentar o nascimento de lideranças para a mudança social, fomentar a participação da cidadania no âmbito social, e fomentar a empatia, entendida como atitude para se colocar no lugar da outra pessoa.
Mattelart (1997, p.49) afirma que na década dos 50 e 60 apareceram numerosos estudos que operacionalizam essa teoria, citando autores como Schramm e Pool. Tais autores entendem a saída do subdesenvolvimento como a passagem da “sociedade tradicional" para a “sociedade moderna".
No contexto da modernização, a doutrina do livre fluxo de informação foi complementada pela “teoria da difusão de inovações" (MATTERLAT, 1997; CORTÉS, 2005). Assim, a mídia passou a ter um papel importante, sendo que a modernização significava uma mudança evolutiva e gradual originada pela transferência de características modernas dos países ocidentais para os países subdesenvolvidos, especialmente para América Latina e Ásia.
Cortés (2005) afirma que em função da difusão de inovações, a única via solução para os problemas dos países subdesenvolvidos era a adoção dos modelos de desenvolvimento ocidentais. O desenvolvimento se identificava com a modernização na perspectiva evolucionista e diferenciadora o que produzia conflitos entre o considerado moderno e o tradicional, sendo que o tradicional era visto como um obstáculo que tinha que ser superado para alcançar o desenvolvimento.
Vistos sempre como conceitos opostos, a modernidade e tradição nem sempre são excludentes no processo de inovação, quando são consideradas as margens de manobra que as mudanças trazem consigo. É importante considerar que num processo inovador, muitas vezes (ou quase sempre) a tradição e os elementos particulares são mais um componente, além da modernidade e tecnologias novas, para a produção de inovações. Esta idéia é defendida por Callon (2004), quando afirma que a inovação não destrói a tradição, pelo contrário se nutre da mesma. Ressalta que existem margens de manobra na competição econômica, na produção dos conhecimentos científicos e na produção de inovações. Tais margens de manobra são capazes de preservar e até enriquecer a identidade das tradições.
Já na sociedade do conhecimento, Bauman (1999, p.26) indica que a informação flui de um modo mais rápido independentemente dos seus portadores, fenômeno que ele chama de “liberação dos corpos". Este fenômeno produz tanto emancipação nos países desenvolvidos com capacidades tecnológicas adequadas, quanto confinamento nos países pobres. Com a mudança no modo de comunicação, que a sociedade do conhecimento trouxe consigo e que constitui uma mudança de paradigma, desenvolveram-se novas formas de se comunicar, de disseminar informação, de criar conhecimento, e inclusive houve um grande impacto sobre outras áreas.
A mudança é explicada desta forma. Os meios de comunicação tradicionais como o rádio, a televisão e a imprensa, funcionam conforme um modelo de comunicação de “um para muitos", tendo com uma hierarquia bem definida de emissor-receptor. A Internet surge e por meio dela um novo modelo de comunicação, de “muitos para muitos", no qual os atores do processo de comunicação não têm um papel fixo, podendo ser ao mesmo tempo produtores e receptores de informação (LÉVY, 2000, p.207; VAZ, 2004). Para Lévy (2000, p.208), “a comunicação interativa e coletiva é a principal atração do ciberespaço", mas evidentemente, segundo ao autor, o ciberespaço também pode ser usado para comunicações ponto a ponto, ou que reproduzam o modo mídia com a emissão de informações a partir de um centro.
Para Levy (2000) quanto maior a interconexão de computadores, maior será o potencial de inteligência coletiva a disposição em tempo real. Assim, considerando a mudança do paradigma de comunicação e a capacidade de colocar na Internet todos os documentos / informações digitalizadas do planeta, a world wide web, constitui segundo Lévy (20007), a maior revolução na história da escrita depois da invenção imprensa.
Com relação às conseqüências desse nesse novo meta-meio comunicacional, Lévy (2000, p.207) afirma que a Internet ao possibilitar o entrelaçamento de múltiplos fluxos, torna-se um centro virtual e um poderoso instrumento de poder. Outra conseqüência fundamental da internet é a eliminação dos limites geográficos no acesso/produção/disseminação da informação (VAZ, 2004, LEVY, 2000). Para Vaz (2004), os novos limites agora são impostos pelo excesso de informação. Dentro do âmbito social, observa-se que a exclusão é o grande risco do ciberespaço (LÉVY, 2000), sendo que as pessoas com menor capacidade de acesso às novas tecnologias vão ter uma menor capacidade de se desenvolver e de produzir conhecimento e riqueza.
No âmbito social pode-se ressaltar mais uma vantagem importante: o fim do processo de intermediação (LÉVY, 2000; VAZ, 2004). Agora o espaço público de comunicação está livre de intermediários institucionais ou políticos, para se publicar um texto na internet não é preciso ter o aval de um editor ou de um processo a priori de avaliação. As conseqüências políticas e culturais dessa desintermediação ainda não se podem avaliar (LÉVY, 2000).
A publicação na Internet possibilita que o compartilhamento da informação seja imediato e, ainda, proporciona maior disponibilidade em termos geográficos e temporais, significando que a informação pode ser acessada de qualquer ponto da rede e em qualquer momento.
Por outro lado, já no âmbito empresarial, as informações colocadas na Internet, devidamente filtradas, constituem uma das fontes de informação para processos empresariais de inteligência competitiva, criação de conhecimento e tomada de decisões, cujas saídas são conhecimento e compromisso para ação (CHOO, 2003).
Conseqüentemente, demonstra-se que a mudança no paradigma comunicacional e as novas tecnologias, favorecem a publicação e o compartilhamento da informação, assim como a criação e o compartilhamento do conhecimento nas suas diferentes formas, o conhecimento criado por meio da interação social para ser um insumo fundamental na geração de inovações.
2.3. Conhecimento como insumo à inovação
Do ponto de vista social, observa-se que a pesquisa científica virou um fator estratégico chave nos planos de desenvolvimento dos países, no contexto da sociedade do conhecimento.
Constata-se igualmente, que existe uma relação positiva entre pesquisa científica e inovação. A inovação sustenta-se em elementos como criatividade, mas também necessita de uma base de conhecimento prévio principalmente tácito, e da pesquisa científica, que vai atuar com um catalisador para ampliar os horizontes e quebrar paradigmas estabelecidos. Estes elementos são críticos para o sucesso do processo inovador. A colocação da criatividade como componente da inovação é defendida por Callon (2004) quando afirma que “a qualidade de uma inovação depende da qualidade das idéias que estão na origem da inovação".
Na perspectiva da sociedade em rede, existem enfoques similares do tema. A informação e o conhecimento são muito importantes tanto do ponto de vista acadêmico quanto do ponto de vista profissional, tornando-se uma vantagem competitiva quando são transformados pelas ações dos indivíduos, sendo recursos fundamentais para o desenvolvimento e manutenção das redes sociais (TOMAEL; ALCARA; DI CHIARA, 2005). Outros autores, como Chaparro (2001), afirmam que os processos de aprendizagem social, um dos elementos da sociedade do conhecimento, permitem a partir de um conhecimento, criar capacidades e habilidades que são apropriados pelas pessoas e comunidade, constituindo-se uma ponte para a inovação e mudanças sociais.
Callon (2004) descreve um novo modelo de pesquisa científica que permite a ação estratégica, quando produz não só textos e enunciados, mas também resultados práticos e procedimentos experimentais. Assim, revela que a teoria é a parte visível do iceberg, e a parte mais importante é a prática, que segundo Callon (2004) representa 90% dos produtos do processo. Muda assim o conceito inicial da deslocação de conhecimentos, pois agora torna-se necessário o deslocamento tanto de conhecimentos quanto das práticas, isto é dos laboratórios. “A ciência só pode ser transferida replicando os próprios laboratórios, ou seja, fabricando verdadeiras redes logísticas; a ciência só circula em redes equipadas, instrumentalizadas". (CALLON, 2004, p.68)
Para Callon (2004), a ciência não se aplica, se replica por força de investimentos muito fortes que permitem à ciência se transformar, se combinar e se adaptar novamente em configurações locais, singulares e geralmente diferentes daquelas que prevalecem em outros lugares. A adaptação local bem sucedida de uma solução já existente é compreendida como inovação, a idéia anterior estabelece uma clara relação entre ciência, conhecimento e inovação.
O processo de inovação é progressivo. Segundo Callon (2004, p.71) “a partir da idéia passa-se aos primeiros desenhos, às primeiras tentativas, depois aos protótipos, e em seguida [...] (a)o desenvolvimento, à comercialização e finalmente (a) o consumidor". O consumidor é quem valida ou rejeita a inovação. Com base nessas idéias, Callon (2004) afirma que a inovação é um processo coletivo e colaborativo, que precisa mapear os grupos que têm interesse na inovação e aqueles que se opõem a ela, dentro das redes sócio-técnicas. Diante disso e conforme diversos autores (CALLON, 2004; TOMAEL; ALCARA; DI CHIARA, 2005; CHAPARRO, 2001), evidencia-se o papel fundamental da criação de conhecimento no processo inovador.
Por outro lado, no âmbito empresarial, diversas pesquisas confirmam uma relação positiva claramente visível entre o conhecimento tácito e o processo de criação de conhecimento organizacional, com a geração de inovações.
No contexto caracterizado pela globalização, desenvolvimento tecnológico e forte concorrência, o conhecimento virou o fator de produção mais importante nas organizações (DRUCKER, 1993; NONAKA; TAKEUCHI, 1997). O conhecimento representa o valor agregado nas organizações, sendo que nas companhias baseadas em conhecimento, o valor agregado tem origem no pessoal da organização (JOHANNESSEN; OLSEN; OLAISEN, 1999).
De outro lado, existem diversos fatores que permitem a criação de inovações. Estes fatores, sejam de origem científica ou empírica, têm diversas relevâncias e impactos para o processo de inovação, dependendo da sua natureza (LEMOS, 1999). Assim, nas organizações, o fator principal para geração de inovações é a criação de conhecimento organizacional, conforme se observa nos modelos descritos a seguir.
Segundo o modelo desenvolvido por Johannessen, Olsen e Olaisen (1999), para relacionar princípios fundamentais da teoria da inovação com a gestão do conhecimento e a visão organizacional, a inovação recebe conhecimento como entrada para produzir conhecimento. Os autores do modelo, apresentado na figura 1, argumentam que a visão da companhia direciona a criação do conhecimento, que de outro lado suporta a inovação organizacional e permite a integração e aplicação do conhecimento.
Henderson e Clark (1990) classificam as inovações em dois tipos: (1) inovações radicais, quando cria-se um novo design conceptual no produto, mudando tanto o conhecimento embutido nos componentes quanto a arquitetura entre suas partes. (2) inovações incrementais, quando colocam-se mudanças relativamente menores no produto existente, aproveitando o potencial do design já estabelecido. Na sua pesquisa, os mesmos autores ressaltam que as inovações radicais têm maior impacto positivo na organização que as inovações incrementais, porquanto abrem as portas de novos mercados e novas aplicações para o produto.
Popadiuk e Choo (2006), considerando a perspectiva da criação do conhecimento, corroboram a classificação das inovações proposta por Henderson e Clark (1990), ressaltando que as inovações radicais são produtos dos processos de socialização e externalização do conhecimento tácito e criam maior vantagem competitiva.
3.A INOVAÇÃO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO
Na sociedade do conhecimento, as organizações tentam inovar para se diferenciar e obter vantagens competitivas, tanto pela melhoria nos produtos / serviços oferecidos quanto pela eficiência operativa. A relação positiva entre inovação e vantagem competitiva existente no contexto atual, confirma-se na pesquisa feita por Damanpour e Gopalakrishnan (2001) em 101 bancos comerciais nos Estados Unidos. A pesquisa concluiu que os bancos melhor sucedidos adotam inovações nos produtos e processos com maior freqüência e consistência que os bancos com menor sucesso. Enquanto ao tipo de inovação adotada, a pesquisa revela que as adoções de inovações no produto estão positivamente associadas às adoções de inovações nos processos, e que as primeiras ocorrem com maior freqüência e velocidade.
Assim, nas organizações, a inovação está caracterizada de diversas formas. Damanpour (1991) afirma que uma inovação pode ser um novo produto ou serviço, um novo processo de produção, uma nova estrutura ou sistema administrativo, ou um novo plano ou programa adotado pela organização. Assim, a inovação implica a geração, desenvolvimento e implementação de novas idéias e comportamentos, prestando especial atenção na sua utilidade (DAMANPOUR, 1991; CAMISÓN-ZORNOZA et al., 2004). Damanpour (1991) identifica o ambiente como detonante do processo inovador nas organizações, quando afirma que a organização adota inovações para responder às mudanças nos seus ambientes internos e externos, os quais têm um caráter dinâmico próprio da sociedade atual. Assim, identificou os seguintes determinantes organizacionais da inovação:
- Determinantes positivos: especialização, diferenciação funcional, profissionalismo, atitude gerencial frente às mudanças, maturidade gerencial, recursos técnicos e intensivos em conhecimento, intensidade administrativa, recursos ociosos, comunicação interna e externa.
- Determinantes negativos: formalização, centralização, diferenciação vertical.
Para Sawhney, Wolcott e Arroniz (2006, p.76), a inovação comercial é “a criação de um valor novo consistente tanto para o consumidor, como para a companhia, por meio da alteração criativa de uma ou mais dimensões do sistema". Colocam três idéias fundamentais referidas à inovação comercial:
- Envolve criação de valor antes que criação de novos produtos. A inovação só é importante quando cria valor para os clientes, e, portanto para a empresa, sendo que a criação de “novos produtos" não basta por si só.
- Tem muitas formas, sendo que pode ocorrer nos produtos, nos processos, na experiência do cliente, entre outras.
- É sistêmica, exigindo a cuidadosa avaliação e revisão de todos os aspectos da empresa ao longo da cadeia de valor.
Ao observar à inovação no panorama nacional, e conforme colocações de diversos autores (BORGES, 1995; FUKS, 2003; GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2002), na atualidade encontram-se fortes investimentos em pesquisa e tecnologia, como processo criador de conhecimento voltado à geração de inovações.
Para Callon, Courtial e Penan (2005), uma patente é um documento público produzido no processo de inovação, situado entre os conhecimentos certificados e a comercialização do produto ou processo objeto da inovação. Ressalta que as patentes têm como objetivo a divulgação e a apropriação. Mesmo as limitações existentes para usar a patente como indicador de inovações, as patentes são um recurso de análise do processo de mudança das capacidades técnicas (CALLON; COURTIAL; PENAN; 2005). Esta última afirmação é corroborada por Godinho (2007) quando afirma que a análise de patentes é um indicador de ciência e tecnologia, inovação e conhecimento.
Uma pesquisa feita com dados coletados no ano 2005 e publicada no ano 2007 pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), revela que o número de patentes concedidas no mundo, aumenta em média 3,6% cada ano, desde 1995, sendo que no ano 2005 foram concedidas 600.000 patentes. A pesquisa da OMPI (2007) revela que o crescimento do número de patentes apresentadas é de tal magnitude que só nos Estados Unidos, a oficina de patentes tinha no ano de 2005, aproximadamente 900.000 patentes em fila para avaliação. Os países que mais cresceram na última década no número de patentes solicitadas são a China e a República de Coréia, colocando-se no quadro dos dez países com maior número de inovações ativas. Este quadro é liderado pelo Japão e pelos Estados Unidos. Tais países estão optando pela criação de conhecimento e inovações, e entenderam o conhecimento como o fator estratégico chave de produção e desenvolvimento na atualidade.
O incremento do número de patentes solicitadas nas áreas de tecnologia, eletrônica e eletricidade é outra característica importante mostrada pela pesquisa da OMPI (2007). Estas patentes são solicitadas principalmente por países como o Japão, os Estados Unidos, a República de Coréia, e a China, além de países da Europa. O principal insumo neste tipo de produtos com alto componente tecnológico é o conhecimento embutido neles, característica típica da sociedade atual segundo a colocação de diversos autores (BORGES, 1995; FUKS, 2003). Este conhecimento não é mais que uma conseqüência dos grandes e consistentes investimentos em pesquisa e desenvolvimento que são feitas nesses países.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na sociedade do conhecimento a diferença entre os países será balizada em função da capacidade de aplicar conhecimento e gerar inovação. Portanto, a produtividade dos países será incrementada na mesma medida das possibilidades de acesso ao conhecimento, dos investimentos realizados para a capacitação dos seus recursos humanos e para desenvolvimento de inovação. Além disso, pela reflexão feita neste artigo pode-se que constatar que:
- Os avanços tecnológicos cada vez mais freqüentes e contínuos na sociedade do conhecimento, favorecem a troca de informações e socialização do conhecimento, possibilitando uma maior geração de inovações e desenvolvimento econômico nos países com um adequado nível de acesso à tecnologia e à ciência. Assim, torna-se imprescindível a ação do estado como agente ativo visando dois objetivos. O primeiro, a democratização da informação, colocando as tecnológicas ao serviço das comunidades, fomentando a inclusão, e em geral, criando oportunidades de desenvolvimento homogêneas na população. Em segundo lugar, o estado deve fomentar a pesquisa tecnológica, entendida como processo criador de conhecimento, o qual constitui o fator estratégico de desenvolvimento e poder na atualidade.
- Os países e em geral, as organizações melhor sucedidas, são aquelas que inovam. Tanto no âmbito social quanto no âmbito econômico, as inovações são criadas a partir das iterações sociais, quando o conhecimento apropriado pelos agentes individuais interage num domínio de conhecimento específico, seja organizacional, ou seja social (NONAKA;TAKEUCHI, 1997; LEMOS, 1999). Para inovar é necessário fomentar aquelas interações em todo nível, criando uma cultura e condições para a troca de idéias.
Adaptação de Antonio Mota. Abril de 2011.
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