quinta-feira, 17 de março de 2016

Texto para o 2º Ano do Ensino Médio.

OS ÚLTIMOS ACERTOS PARA DELIMITAR AS FRONTEIRAS

            Os últimos acertos importantes para delimitar esse contorno terrestre que o Brasil apresenta foram realizados no final do século XIX (1895, 1900) e início do século XX (1903-1904).
            A questão de Palmas, território situado entre o sudeste do Brasil e noroeste da Argentina (que hoje constitui o oeste do Paraná e de Santa Catarina, também conhecido como Iguaçu), foi solucionada em 1895. Os dois países disputavam esse território de 35 431 km² rico em ervais (a planta da erva-mate) e que começou a ser mais intensamente explorado na segunda metade do século XIX.
            Para sorte do Brasil, na época a Argentina vivia enorme crise política (de 1889 a 1895 ocorreram quatro mudanças de presidente do país e dos seus ministérios) e, ao mesmo tempo, confrontava o Chile por causa de uma disputa de fronteiras muito mais problemática. Assim, a opinião pública e as tropas argentinas estavam mobilizadas contra o Chile em 1895. Brasil e Argentina decidiram recorrer à arbitragem do presidente dos Estados Unidos, que após estudar os reclames de ambos os lados (e também os argumentos do Chile, que intercedeu a favor do Brasil), acabou decidindo que o território de Palmas deveria pertencer ao Brasil.
            A questão do Amapá, que opôs o Brasil à Guiana Francesa (colonizada pela frança), também foi resolvido por meio de arbitragem internacional, desta vez realizada pela Suíça. As autoridades suíças, escolhidas de comum acordo pelos dois dados em litígio, decidiram em 1900 que essa área, que corresponde à metade do atual estado do Amapá, deveria continuar a fazer parte do Brasil.
            Quanto ao Acre, a disputa principal foi com a Bolívia, que reclamou da invasão da parte leste do seu território por seringalistas brasileiros. Durante alguns anos as tropas bolivianas e brasileiras, em ação conjunta, tentaram expulsar dessa área os seringalistas, mas após muitas lutas eles se rebelaram e declararam a independência do Acre em 1902. Brasil e Bolívia – e também o Peru, que teve um pequeno trecho do seu território invadido pelos seringalistas – reuniram-se em 1903 e assinaram o Tratado de Petrópolis, segundo o qual essa área passou a fazer parte do território brasileiro. O Brasil indenizou a Bolívia e o Peru em cerca de 2 milhões de libras esterlinas, a moeda internacional mais valorizada na época, e se comprometeu a construir a Ferrovia Madeira-Mamoré, para escoamento e exportação da borracha através dos portos de Manaus e Belém.
            O último grave problema fronteiriço no contorno terrestre foi a questão do Pirara, que opôs o Brasil à Guiana Inglesa, na época colônia do Reino Unido e hoje país independente denominado Guiana. Ocorreu uma disputa sobre uma área de 22 015 km² ao redor do lago de Pirara, na Amazônia, e uma arbitragem internacional, realizada pelo governo italiano, decidiu que a maior parte desse território (12 950 km²) ficaria sob domínio da Guiana Inglesa e outra parte (9 065km²) com o Brasil.
            Pro fim, existem outras duas zonas de fronteiras que talvez ainda sejam rediscutidas neste novo século nas organizações internacionais: a marítima e a aérea. Quanto às fronteiras marítimas, o Brasil possui duas faixas ou zonas de domínio: mar territorial e zona econômica exclusiva.
            O mar territorial é a faixa de 12 milhas (mais ou menos 22 km) a partir da costa sobre a qual o Estado brasileiro tem soberania plena, o que significa que aí ele decide sozinho sobre navegação, pesca, comunicações, uso dos recursos, etc. E a zona econômica exclusiva é a área que vai até 200 milhas (370 km) da costa, ou 188 milhas depois do mar territorial. Nessa zona o Brasil, assim como os demais países – por isso resultou de um tratado internacional, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em vigor desde 1994 –, possui soberania limitada, que vale exclusivamente para a exploração econômica e a gestão dos recursos naturais. Depois das 200 milhas da costa inicia-se o alto-mar, considerado área internacional.
            Quanto à zona aérea, o Brasil, e também os demais Estados, possui soberania na atmosfera acima do seu solo, que vai até mais ou menos 90 km de altitude. Claro que a soberania sobre esse espaço aéreo não é regida, por causa de tratados internacionais que facilitam o transporte aéreo. Se assim não fosse, a aviação mundial ficaria muito prejudicada, pois, por um lado, existem inúmeros países (Bolívia, Paraguai e Suíça, por exemplo, que não tem saída para o mar e estão cercados de vizinhos) que necessitam usar o espaço aéreo de outras nações para as suas linhas, e, por outro, certas rotas de aviação ficariam mais longas se não passassem pelo espaço aéreo de alguns países que estão no seu caminho. Mas existe, ou deveria existir, um constante monitoramento do espaço aéreo nacionais de cada país, com o objetivo de cercear os vôos não autorizados de aviões que servem ao tráfico de drogas, por exemplo, que costumam usar com freqüência o espaço aéreo brasileiro, especialmente na Amazônia.

Fonte: VESENTINI, José William. Brasil: Sociedade e Espaço. São Paulo: Ática, 2002.       

Adaptação: MOTA, Antonio Andrade. Nazaré, Fevereiro de 2016.