Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho / Nazaré - Bahia
Aula de Campo
Destino: Cidade de Santo Antônio de Jesus e Serra da Jibóia / 27/05/2011
Professores: Cintia LUZ – História
José ORRICO – Biologia
Antonio MOTA – Geografia
INTRODUÇÃO AO CONTEÚDO
O ESPAÇO URBANO DE SANTO ANTÔNIO DE JESUS
O espaço urbano de Santo Antônio de Jesus se caracteriza, como vários outros das “cidades médias”, por um dinamismo e uma estrutura diversificada, sendo os condomínios fechados um dos elementos marcantes para sua dinâmica socioespacial e sua estruturação urbana.
O aumento dessa forma de morar pode ser considerado inquietante para a cidade como um todo, devido ao isolamento que esses condomínios fechados promovem no espaço urbano. Sua proliferação não constrói uma cidade “iluminada”, pelo contrário, reforça um centro urbano fragmentado que se apresenta com uma “prática perversa” e muito pouco sociável.
A cidade de Santo Antônio de Jesus tem grande importância dentro de sua área de influência, o Recôncavo Sul. Ela se destaca pela forte presença comercial, principalmente os setores de materiais de construção, calçados, vestuários, alimentação, medicamentos, automóveis, eletro-eletrônicos, móveis residenciais e comerciais, informática e bebidas, além de alojar o segundo maior shopping center em tamanho do interior da Bahia, galerias de lojas, entre outros estabelecimentos comerciais menores.
Na parte comercial informal, a feira livre também se destaca devido sua grande importância histórica e econômica para toda a região, com destaque para alguns produtos: roupa, farinha de mandioca, laranja, cacau, milho, amendoim e carne.
Na prestação de serviços destacam-se os ramos médico-hospitalar, odontológico, educacional, financeiro, hoteleiro, de comunicação e de lazer. Serviços de profissionais liberais em arquitetura, engenharia civil e agronômica, advogados e contadores. Outro destaque são os serviços públicos federais (INSS, Receita Federal, IBAMA, Polícia Rodoviária Federal, IBGE, Tribunal Regional do Trabalho, Delegacia Regional do Trabalho, SEBRAE, UFRB, Alistamento Militar do Exército), e os estaduais (DIRES, DIREC, DERBa, Ciretran, Depin, AGERBA, Policia Rodoviária Estadual, UNEB, SAC, Inspetoria Fazendária, Tribunal de Contas dos Municípios). Além disso, vale mencionar as oficinas especializadas nas diversas áreas (automóveis, caminhões, maquinas agrícolas, motores e bombas hidráulicas, computadores, eletrodomésticos) evidentes nesse cenário que coloca a cidade de Santo Antônio de Jesus como uma das mais dinâmicas do estado da Bahia. Os comerciantes e os prestadores de serviços são os mais contemplados por essa dinâmica financeira que favorece o crescimento das suas rendas e lhes possibilita morar em condomínios fechados, entre os seus pares.
A cidade de Santo Antônio de Jesus é considerada como a mais próspera do Recôncavo Sul do estado da Bahia, localiza-se a 187 km de Salvador por via terrestre, ficando à margem da rodovia BR 101. As primeiras ocupações do território do atual município de Santo Antônio de Jesus datam dos séculos XVII e XVIII, resultantes do processo de desbravamento empreendido pelos colonizadores que vieram juntar-se aos índios aqui existentes. Esses índios estavam na localidade denominada Pedra Branca, hoje pertencente ao município de Elísio Medrado, essa nação foi a primeiras habitar essa região[1].
Os fatores relevantes para o povoamento da localidade foram a fertilidade de suas terras para o cultivo de produtos variados, a presença de valiosas árvores de lei, os recursos fluviais (rio Da Dona, rio Jaguaripe, rio Sururu e alguns riachos) que propiciavam a plantação de cana-de-açúcar com o estabelecimento de pequenos engenhos, além da existência de tabuleiros[2] próprios para a atividade agrícola.
No século XVIII já havia um grande número de plantadores de mandioca, dentre os quais se sobressaiam os nomes dos padres Mateus Vieira de Azevedo, José Ferreira de Paio e Bento Pereira. O padre Mateus Vieira de Azevedo é uma das figuras que mais se destacaram no processo de desbravamento do município de Santo Antônio de Jesus e hoje é homenageado emprestando o seu nome para a principal praça da cidade.
Em torno da capela, onde atualmente encontra-se a Praça Padre Mateus e a Igreja da Matriz de Santo Antônio de Jesus, surgiram os primeiros arruamentos que deram origem à cidade. Segundo a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (1958: 36), no ano de 1875, Santo Antônio de Jesus alcançava 9.654 habitantes, sendo destes 4.000 escravos e 3.000 estrangeiros que viviam nos limites do município.
Em 29 de maio de 1880, de acordo com a Lei 1952, a freguesia da paróquia de Santo Antônio de Jesus foi elevada à categoria de vila, desmembrando-se dos municípios de Nazaré, São Miguel e Nova Laje. Em 30 de julho de 1891, o governo do estado elevou a vila à categoria de cidade, ano em que ocorreu a inauguração da estrada de ferro, da qual Santo Antônio de Jesus seria fim de linha durante uma década, ocasionando um grande impulso para o desenvolvimento comercial da cidade. A história do município também foi fortemente marcada por embates políticos, tendo abrigado grupos de abolicionistas, republicanos, conservadores e liberais.
Em relação às indústrias, o município possui um distrito industrial que foi inaugurado em 1995 pelo Governo estadual, (como incentivo à industrialização do interior do estado) e está localizado a 6 km do centro da cidade, abrangendo uma área total de 11,8 hectares.
No ano de 2003, o município passou a sediar uma grande indústria, a Dal Ponte, do ramo de calçados, que acenou para a população local com uma grande promessa de empregos, sendo que na época de sua implantação se falava de algo em torno de 4000 (quatro mil) empregos diretos, hoje, porém, a unidade fabril não ultrapassa os 800 (oitocentos) funcionários. A cidade já possui, há muito tempo, várias pequenas firmas industriais voltadas para a produção de fogos de artifício, de vassouras, de sabão e seus derivados, roupas, móveis, processamento de leite e de café e uma no ramo de colchões, a Reconflex, que hoje se destaca no Distrito Industrial como uma das maiores empresas do setor no estado da Bahia.
A SERRA DA JIBÓIA
Localização:
A Serra da Jibóia caracteriza-se por um relevo bastante movimentado, cujos montes possuem altitudes entre 750 m e 840 m. Sua crista mede 26 km de comprimento, estendendo-se na direção Norte-Sul. Ela possui uma área de 6.375 hectares, ou 63,75 km2, aproximadamente, calculando-se a partir da curva de nível de 440 metros, a qual coincide com a sua base. Ela abrange parte do território de cinco municípios integrantes da Região Econômica do Recôncavo Sul, no estado da Bahia (vide figura 01). A área da serra fica assim distribuída entre os municípios: Varzedo 31%; Santa Terezinha 27%; Elísio Medrado 21%; Castro Alves 19%; e São Miguel das Matas 2%. A Serra da Jibóia localiza-se em uma zona ecótona ou de transição, o que a confere uma grande diversidade de climas, relevos, solos, vegetação e fauna.
Geomorfologia:
Esta região encontra-se sobre uma estrutura de escudo cristalino, com rochas pertencentes ao Complexo de Jequié, do período Pré-Cambriano Inferior (2,6 a 3,2 bilhões de anos). As rochas são altamente metamorfizadas, com diversos tipos de gnaisses. Há ocorrência de manganês, ferro, muscovita e pirita (RADAMBRASIL, 1978). A estrutura geomorfológica da Serra da Jibóia e do seu entorno está incluída na Região do Planalto Rebaixado, marcando a fronteira entre duas unidades geomorfológicas: a leste da sua crista encontra-se a unidade dos Tabuleiros Interioranos, integrando relevos tabuliformes, colinas com topos aplainados; a oeste, encontra-se a unidade dos Tabuleiros Pré-Litorâneos, apresentando relevos planálticos trabalhados em rochas granitizadas do escudo; cadeias marginais incorporadas ao setor cratônico e uma faixaremobilizada com intrusões (RADAMBRASIL, 1978).
Nas proximidades da serra, a predominância de processos morfogenéticos associados ao intemperismo químico e ao entalhe fluvial, provocou o desgaste das rochas cristalinas, modelando um relevo típico de “mares de morros”, predominando os interflúvios — pequenas ondulações que separam os vales, cujas vertentes são, em sua maioria, de forma convexa, constituindo pequenas colinas. Algumas vertentes côncavas existentes resultaram do escoamento concentrado sobre áreas de material menos resistente aos processos erosivos, originando formações denominadas anfiteatros que, geralmente, favorecem o afloramento do aqüífero, brotando as nascentes.
Clima e vegetação:
Devido a sua posição geográfica em uma zona ecótona, a crista da serra marca o limite de uma transição climática na região, com um clima variando entre o tropical úmido, mais ao Sudeste e ao Leste, devido à interceptação dos ventos úmidos vindos do litoral e à ocorrência de chuvas orográficas; e o tropical semi-úmido, mais ao Norte e a Oeste, sendo que o clima se torna mais seco na medida em que aumenta a distância em relação ao mar. A temperatura média anual é de 21ºC, e o índice pluviométrico anual é de 1.200 mm, apresentando variações em função da altitude e da maritimidade, sendo que as chuvas se concentram entre os meses de abril a julho.
A transição climática também implica em transição entre vários tipos de vegetação. Ao longo da sua vertente oriental e ao sul, onde o clima é mais úmido, em função da maritimidade e dos ventos alísios de sudeste, predomina a floresta ombrófila densa. Esta floresta ombrófila densa é a Mata Atlântica propriamente dita. Trata-se de uma formação vegetal adaptada às regiões mais próximas ao litoral, onde predominam um clima quente e úmido. É uma floresta latifoliada tropical perenifólia, ou seja, uma vegetação com folhas perenes e largas para captar o máximo de luminosidade. As árvores são altas e esguias, com ramos apenas na parte superior, devido ao sombreamento. Os troncos e os ramos são recobertos por musgos, liquens, epífitas e trepadeiras. Essas formações vegetais são muito comuns na maior parte da Serra da Jibóia.
As conseqüências da alteração da vegetação original:
A Mata Atlântica é, dentre as florestas tropicais, a que apresenta a maior biodiversidade por hectare do mundo, com muitas espécies ameaçadas de extinção. Esta biodiversidade está associada à sua distribuição irregular (azonal) e, conseqüentemente, à variação dos demais fatores naturais no perímetro deste domínio morfoclimático. Pesquisas recentes revelam que a Mata Atlântica pode possuir a maior diversidade de árvores do mundo, como comprova um estudo que encontrou 454 espécies de árvores numa área de um hectare, no sul da Bahia. Some-se à alta diversidade, o fato de que pelo menos 50% das plantas vasculares
conhecidas da Mata Atlântica são endêmicas. O nível de endemismo cresce significativamente quando as espécies da flora são separadas em grupos, atingindo 53,5% para espécies arbóreas, 64% para as palmeiras e 74,4% para as bromélias (REDE DE ONGS DA MATA ATLÂNTICA, 2001).
A mata que ainda resta na Serra da Jibóia é muito importante para garantir a sua diversidade biológica. Porém, este rico patrimônio natural está ameaçado pelos constantes desmatamentos na região. Enquanto se aguarda a boa vontade dos políticos, este rico geossistema está se degradando irreversivelmente.A vegetação original vem sendo irresponsavelmente destruída por sucessivas queimadas, com o corte ilegal de árvores, e substituída por pastagens e pelo cultivo de gêneros agrícolas, sem o uso de nenhuma técnica de combate à erosão. No que diz respeito às queimadas, muito comuns na região, além de contribuir para apoluição atmosférica (leia-se efeito estufa), o calor produzido na combustão faz com que os microrganismos responsáveis pela fixação de nitrogênio no solo morram, reduzindo ainda mais a fertilidade de um solo com aptidão regular para a agricultura. A retirada da cobertura vegetal extingue a serrapilheira, uma camada de folhas, galhos e frutos que caem das árvores. Com a sua ausência, a erosão se intensifica; o solo fica estéril; o lençol aqüífero se extingue; ou seja, altera todo o equilíbrio do geossistema.
Grande parte da cobertura vegetal original da Serra da Jibóia foi retirada para dar lugar às atividades agropecuárias. Esta alteração, incompatível com as características geoambientais da região, a qual apresenta um relevo bastante irregular e com grande declividade, fez com que se intensificasse o processo de erosão.
Para se ter uma idéia do grande impacto que a pecuária provoca, em um hectare de terra, numa área com 45º de inclinação e coberta por matas (desprezando-se o tipo de solo), por exemplo, há uma perda de 4 kg de solo erodido por ano. Se esta mesma área estiver recoberta por pasto, a perda será de 700 kg de terra erodida por ano; se for recoberta por culturas que deixam espaços de solo descobertos, como o café ou a laranja, a perda será de 1200 kg de solo. Se estiver totalmente desprotegido, a quantidade de solo erodido será em torno de 40 000 kg por ano.
[1] Todas as informações históricas foram obtidas a partir do site <www.vertentes.ufba.br/santoantonio>. Esse é um projeto da Universidade Federal da Bahia que tem o objetivo de caracterizar a realidade sociolinguística do país, bem como de sua formação sócio-histórica. Nesse contexto, a História social e cultural de Santo Antônio de Jesus é pesquisada e apresentada de forma bastante objetiva.
[2] Entende-se por tabuleiro “a paisagem de topografia plana, originada de rochas sedimentares, presente próximo à costa em todo o Nordeste brasileiro” (Dicionário de Geografia, 1996: 203).
Agradeço a SAMUEL DIAS SANTOS pela oferta do material sobre a Serra da Jibóia. Como sempre, esse eterno Educador, hoje servidor do IBAMA se mostra cordial com as questões sócio-ambientais.