Desafios do Século XXI
O
futuro é sempre especificamente imprevisível. A continuada aceleração da
história, desde o início dos tempos modernos, vertiginosamente a partir da
Segunda Guerra mundial, torna particularmente impossível qualquer antecipação
do que concretamente venha a ser o século XXI.
Os
dois principais fatores dessa imprevisibilidade são, por um lado, as
extraordinárias inovações tecnológicas que estão surgindo e continuarão a
surgir, com os efeitos que terão sobre a sociedade futura. Por outro lado, são
os rumos que venha a seguir essa sociedade futura, não somente por causa do
imprevisível impacto das inovações tecnológicas mas, principalmente, em função
das profundas mudanças culturais que estão ocorrendo no âmbito de sociedades
consumistas de massa, em detrimento de seus valores superiores.
Independentemente
de outras circunstâncias, entretanto, duas grandes tendências podem ser
identificadas com relação ao século entrante resultantes, por um lado, do
processo de globalização e, por outro, da formação de uma nova ordem mundial.
O
atual processo de globalização, sobre o qual já existe uma ampla literatura,
caracteriza-se, como precedentemente ocorreu com os efeitos da revolução
mercantil e da revolução industrial, por extrema assimetria, incomparavelmente
superior à decorrente dos processos anteriores. Um restrito número de países e
de grupos recolherá quase todos os benefícios da globalização.
Alguns
países e grupos - como poderá ser o caso do Brasil e da América do Sul, no
âmbito de Mercosul - lograrão uma situação de equilíbrio. A grande maioria dos
grupamentos humanos arcará com os custos desse processo. Custos múltiplos e
variados, que importarão em amplo desemprego, em deslocamentos negativos de
toda a sorte, em perda de identidade coletiva, e num desamparo geral dos
indivíduos.
Tais
efeitos negativos, que serão, muitas vezes, concomitantemente acompanhados por
uma elevação tecnologicamente induzida do nível de vida, decorrerão
principalmente do fato de que as estruturas nacionais serão majoritariamente
desarticuladas pelo processo de globalização, sem que, ao mesmo tempo, surjam
instituições internacionais compensadoras.
A
grande maioria dos homens perderá sua cidadania nacional muito antes do momento
em que se configure, de maneira estável, uma razoavelmente eqüitativa ordem
mundial.
Texto de Helio Jaguaribe,
cientista político.
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