domingo, 7 de maio de 2017

Texto Nº 1 - 3º Ano do Ensino Médio

Desafios do Século XXI
O futuro é sempre especificamente imprevisível. A continuada aceleração da história, desde o início dos tempos modernos, vertiginosamente a partir da Segunda Guerra mundial, torna particularmente impossível qualquer antecipação do que concretamente venha a ser o século XXI.
Os dois principais fatores dessa imprevisibilidade são, por um lado, as extraordinárias inovações tecnológicas que estão surgindo e continuarão a surgir, com os efeitos que terão sobre a sociedade futura. Por outro lado, são os rumos que venha a seguir essa sociedade futura, não somente por causa do imprevisível impacto das inovações tecnológicas mas, principalmente, em função das profundas mudanças culturais que estão ocorrendo no âmbito de sociedades consumistas de massa, em detrimento de seus valores superiores.
Independentemente de outras circunstâncias, entretanto, duas grandes tendências podem ser identificadas com relação ao século entrante resultantes, por um lado, do processo de globalização e, por outro, da formação de uma nova ordem mundial.
O atual processo de globalização, sobre o qual já existe uma ampla literatura, caracteriza-se, como precedentemente ocorreu com os efeitos da revolução mercantil e da revolução industrial, por extrema assimetria, incomparavelmente superior à decorrente dos processos anteriores. Um restrito número de países e de grupos recolherá quase todos os benefícios da globalização.
Alguns países e grupos - como poderá ser o caso do Brasil e da América do Sul, no âmbito de Mercosul - lograrão uma situação de equilíbrio. A grande maioria dos grupamentos humanos arcará com os custos desse processo. Custos múltiplos e variados, que importarão em amplo desemprego, em deslocamentos negativos de toda a sorte, em perda de identidade coletiva, e num desamparo geral dos indivíduos.
Tais efeitos negativos, que serão, muitas vezes, concomitantemente acompanhados por uma elevação tecnologicamente induzida do nível de vida, decorrerão principalmente do fato de que as estruturas nacionais serão majoritariamente desarticuladas pelo processo de globalização, sem que, ao mesmo tempo, surjam instituições internacionais compensadoras.
A grande maioria dos homens perderá sua cidadania nacional muito antes do momento em que se configure, de maneira estável, uma razoavelmente eqüitativa ordem mundial.

Texto de Helio Jaguaribe, cientista político. 

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